Autora de livros que resgatam a infância dos primeiros colonizadores do Cone Sul de Rondônia, a professora e pesquisadora Érica Pizapio, do IFRO Colorado do Oeste, é uma das responsáveis por uma das iniciativas culturais mais emocionantes da 38ª Expocol. Por meio de um projeto de extensão que une literatura, pesquisa histórica e oficinas de brinquedos tradicionais, ela apresenta às novas gerações as histórias e brincadeiras das chamadas “crianças pioneiras”, personagens muitas vezes esquecidos nos relatos sobre a ocupação da região.
Entre tratores, animais de genética superior e tecnologias voltadas ao agronegócio, um espaço especial na Expocol, dentro do pavilhão do IFRO, tem atraído famílias inteiras para uma viagem ao passado. Coordenado por Érica Pizapio, o projeto valoriza a memória das primeiras crianças que chegaram ao Cone Sul de Rondônia durante o processo de colonização da região.
A iniciativa nasceu a partir das pesquisas desenvolvidas por Érica durante seu doutorado, quando decidiu investigar um aspecto pouco abordado na história regional.
“Quando falamos dos pioneiros, normalmente lembramos dos homens que abriram estradas, derrubaram matas e construíram as primeiras propriedades. Mas onde estavam as crianças nesse processo? Elas também participaram dessa história. Por isso eu passei a chamá-las de crianças pioneiras”, explica a autora.
A pesquisa possui um significado ainda mais especial porque se confunde com a própria trajetória da escritora. Érica chegou a Rondônia ainda criança, no início da década de 1980, e vivenciou muitas das experiências que hoje retrata em seus livros e atividades educativas.
“Eu também sou uma dessas crianças pioneiras. Cheguei aqui com quase cinco anos de idade. Trabalhei na roça ajudando meus pais, como acontecia com milhares de crianças naquela época. Essas histórias fazem parte da construção da nossa identidade regional.”
Livros transformam memórias em patrimônio cultural
A partir dos relatos coletados durante a pesquisa, Érica produziu obras literárias que vêm ajudando a preservar a memória da colonização do Cone Sul sob o olhar das crianças.
Entre elas estão os livros “As Brincadeiras da Amazônia no Cone Sul de Rondônia” e “Borboletas na Linha”, que apresentam ao público infantil histórias inspiradas em experiências reais vividas pelos primeiros moradores da região.
“Borboletas na Linha” conta a história de Catarina Sena, uma das crianças pioneiras que chegou à região ainda muito jovem. Sem brinquedos industrializados, ela improvisava sua diversão utilizando elementos da natureza.
“Ela pegava linhas da mãe e prendia borboletas como se fossem pipas. São histórias simples, mas que representam a infância de uma geração inteira que ajudou a construir esta região.”
Brincadeiras que atravessam gerações
O espaço montado na Expocol permite que as crianças conheçam e reproduzam brinquedos semelhantes aos utilizados por seus pais e avós.
Boizinhos feitos com legumes, petecas produzidas com materiais reaproveitados, brinquedos confeccionados com sementes e folhas fazem parte das oficinas realizadas durante a feira.
“Naquela época a gente brincava com aquilo que tinha. Não existia acesso aos brinquedos que existem hoje. A criatividade era nossa principal ferramenta.”
Segundo a professora, um dos objetivos é estimular o contato das novas gerações com manifestações culturais que vêm desaparecendo com o avanço da tecnologia.
“Hoje muitas crianças estão conectadas ao celular praticamente o tempo todo. Queremos mostrar que existem outras formas de brincar, criar e interagir.”
Projeto já percorre escolas do Cone Sul
Desenvolvido pelo curso de Pedagogia do IFRO Colorado do Oeste, o projeto conta também com a participação da professora doutora Jéssica Gomes e de acadêmicas da instituição.
Há mais de quatro anos, a iniciativa realiza oficinas, contação de histórias e atividades culturais em escolas urbanas e rurais da região.
“A receptividade é muito positiva. Os alunos ficam encantados quando descobrem como seus pais e avós brincavam. Muitos se surpreendem ao perceber que era possível criar brinquedos e se divertir com recursos muito simples.”
Resistência cultural em meio à tecnologia
Para Érica Pizapio, o projeto representa uma forma de preservar memórias que poderiam se perder com o passar do tempo.
“É uma resistência cultural. Vivemos em uma era extremamente tecnológica, mas não podemos deixar que nossa história desapareça. Essas brincadeiras, essas experiências e essas memórias também fazem parte da formação das crianças de hoje.”
A escritora destaca ainda que iniciativas como essa ampliam a missão educacional do IFRO.
“O Instituto Federal é reconhecido pelas áreas técnicas e agropecuárias, mas também tem um papel importante na valorização da cultura e da identidade regional. Nem todos os nossos alunos serão agrônomos, veterinários ou zootecnistas, mas todos precisam conhecer a história do lugar onde vivem.”
Ao transformar lembranças da infância pioneira em literatura, pesquisa e ação educativa, Érica Pizapio demonstra que preservar a memória também é uma forma de construir o futuro, levando para dentro da Expocol uma das mais belas expressões da cultura e da história do Cone Sul de Rondônia.