
Por Daniel Pereira
Há alguns anos, fui apresentado pelo Dr. Newton Pandolpho, amigo médico residente em Vilhena, ao livro O Rio da Dúvida, de Candice Millard. A obra narra a saga vivida pelo ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt que, ao lado do então coronel Cândido Mariano da Silva Rondon, desbravou um curso d’água inteiramente desconhecido. Não se sabia, à época, se o rio corria rumo ao Planalto Central ou à Bacia Amazônica. A única forma de descobrir era percorrendo-o — e foi por essa incerteza que o próprio Rondon o batizou de Rio da Dúvida.
Roosevelt, um dos nomes mais marcantes da história americana, amargara a derrota na tentativa de conquistar um terceiro mandato presidencial. Em meio a uma crise pessoal, buscava uma grande empreitada para se reerguer. A ideia inicial, sugerida pelo padre John Augustine Zahm, era uma viagem de exploração pelo Rio Amazonas.
Escalado para acompanhar a comitiva, Rondon recusou terminantemente o papel de mero “guia de turismo”. Impôs uma condição aceita por Roosevelt: a expedição teria caráter estritamente científico.
Para alcançar a cabeceira do Rio da Dúvida, foram meses de marcha nos idos de 1913 e 1914, saga registrada em detalhes pelo próprio ex-presidente no livro Through the Brazilian Wilderness (Nas Selvas do Brasil). Entre os marcos da expedição, uma fotografia icônica eternizou os dois exploradores de pé sobre uma enorme rocha.

Mais de um século depois, essa imagem inspira o artista plástico paraibano Mikeliton na criação de um monumento em Vilhena, cidade que abriga uma das estações telegrafias erguidas por Rondon, a cerca de 40 quilômetros da cabeceira do histórico rio.
A proposta vai além da foto: sobre a pedra representativa, o monumento prestará homenagem aos povos originários por meio da figura de Marciano Zonoecê, indígena treinado por Rondon para ser telegrafista, hoje sepultado em Vilhena, onde ainda residem seus descendentes. Completam a composição o cão Cahy, fiel companheiro de Rondon, e a fauna local — representada por um veado, uma anta e uma onça.
Erguer esse monumento em Vilhena é mais do que resgatar a memória nacional e internacional; é dar às novas gerações a chance de compreender a própria história, além de dotar a aprazível “Porta da Amazônia” de um novo e merecido atrativo turístico.
Este desafio agora será levado às autoridades políticas da região e do Estado, além de empresários dispostos a financiar o empreendimento. Trata-se de uma iniciativa que vai além do concreto: é um legado fundamental para as futuras gerações.
Fonte: Livro “O Rio da Dúvida”.
Daniel Pereira é professor e um agradecido filho adotivo das terras de Rondon.